Chegando aos cinemas com um retrato vibrante do cotidiano de Seul, Regras do Amor na Cidade Grande pode, à primeira vista, parecer uma releitura moderna do clássico My Sassy Girl (2001). Mas, na verdade, traz uma proposta diferente com um “casal” de amigos, em que ele é gay e ela é a melhor amiga que dividiu apartamento com ele nos famosos dias de “pobreza” da faculdade.
Com flashbacks nostálgicos e referências ao K-pop raiz, como Bad Girl Good Girl do miss A, o longa é baseado no livro de Sang Young Park. O autor sul-coreano transformou suas experiências pessoais em uma obra premiada que conquistou não só as páginas, mas também as telas do cinema e da televisão.
Além da estreia nos cinemas, Regras do Amor na Cidade Grande também ganhou uma versão em K-Drama produzida pela TVING. O sucesso da obra ultrapassou os limites tradicionais da cultura sul-coreana, gerando debates em uma sociedade ainda conservadora em relação às representações LGBTQIAPN+. A repercussão lembra movimentos anteriores causados por produções como Me(a)rry Queer e HIS MAN, que também abordaram temas LGBTQIAPN+ em reality shows.
Mas Regras do Amor na Cidade Grande é um BL? Não exatamente. A versão cinematográfica dá destaque à amizade entre os protagonistas, deixando os relacionamentos amorosos em segundo plano. Podemos dizer que tem, mas não é o foque da obra.
A história

No presente, vemos Heung-soo (Noh Sang-hyun) e Jae-hee (Kim Go-eun) se cumprimentando como “marido e esposa”. Ambos vestem roupas de casamento e, a partir daí, somos levados para um flashback que retorna 15 anos no tempo, revisitando seus tempos de universidade.
Acompanhamos o jovem Heung-soo, que é gay e estuda francês na universidade. Ele acaba se envolvendo com o professor de francês, Olivier (Salim Benoit), durante uma balada — o que leva a beijos intensos em uma rua próxima. O que ele não esperava era que sua colega de classe, Jae-hee, o visse aos beijos com o professor.
Tentando manter o segredo, enquanto Jae-hee não dá a menor importância ao episódio, nasce entre eles uma amizade. Uma amizade que cresce com confidências, permitindo que ele seja ele mesmo ao lado dela, mesmo mantendo discrição na faculdade. Isso acaba levando os dois a morarem juntos.
O jeito direto de Jae-hee, porém, faz com que ela seja malvista por seus colegas de classe, ao ponto de uma foto de seios circular entre os grupos da faculdade, o que a faz perder a paciência e mostrar os próprios seios em sala, provando que não era ela na imagem.
A mãe de Heung-soo (Jang Hye-jin), extremamente religiosa, acredita que a sexualidade do filho é uma “fase”. Ao vê-lo morando com Jae-hee, interpreta a relação como um namoro, sem compreender a profundidade da amizade entre os dois.
Heung-soo participa de um encontro às cegas gay em um bar, com uma mesa repleta de pretendentes. Acaba passando mal e vomitando no pé de Su-ho (Jung Hwi), o que os obriga a sair mais cedo do local, terminando em um hotel. Mesmo não querendo um relacionamento sério, Heung-soo começa a sair com Su-ho, mas sempre com receio de que ele queira algo mais profundo.
A relação de Jae-hee e Heung-soo remete à dinâmica clássica de My Sassy Girl, com uma protagonista carismática, intensa e nada convencional.Por ser um clássico extremamente popular na Coreia do Sul, com diversas adaptações, não é difícil imaginar uma referência direta aqui.
Voltando a trama, a Jae-hee se envolve com um colega de sala que já namorava outra garota. Após descobrir a traição, ela busca consolo em Heung-soo. No entanto, uma briga envolvendo preconceito na universidade e o clube LGBTQIAPN+ afasta ainda mais os dois amigos com Heung-soo defendendo Su Ho.
Enquanto isso, a convivência de Heung-soo com Jae-hee passa a impressão, para a sociedade, de que eles são um casal, o que se intensifica quando ela engravida e decide fazer um aborto. Procurando clínicas, os dois são vistos como um casal, sem que ninguém perceba que ele é apenas o “amigo gay”.
A amizade entre Jae-hee e Heung-soo começa a se desgastar quando ele decide se alistar no serviço militar obrigatório, enquanto ela se cansa da faculdade e vai morar na Austrália.
Aos 27 anos, Jae-hee trabalha em um escritório, enquanto Heung-soo procura emprego. É nesse ponto que conhecem Kim Ji Seok (Oh Dong-min), um advogado que trabalha ocasionalmente como barman justamente no bar que ambos frequentam.
Jae-hee e Kim Ji-seok começam a namorar sério, até que um dia ele a flagra dormindo ao lado de Heung-soo. Isso gera uma enorme discussão. No auge do confronto, Jae-hee revela que Heung-soo é gay — e essa exposição repentina estremece tanto a amizade dos dois quanto o relacionamento com Ji-seok, que chega ao fim.
Não sem antes Kim Ji-seok esperar Jae-hee em casa e tentar agredi-la fisicamente, o que gera um caos que termina na delegacia. Heung-soo é chamado, encontra Ji-seok na rua e o leva à força para depor.
Mas será que a amizade deles vai resistir ao tempo?
Casamento com spoilers

Anos depois, Jae-hee está prestes a se casar. Em um momento tocante, ela e Heung-soo se reencontram momentos antes do casamento e relembram o passado, incluindo as tatuagens feitas juntos por um ex-namorado dela, após uma bebedeira.
Heung-soo surpreende ao cantar Bad Girl Good Girl do miss A, em uma das cenas mais emocionantes do longa. Trazendo à tona lembranças de faculdade e de quem viveu meados de 2010.
Ele também supera desafios familiares, com a mãe assistindo Me Chame Pelo Seu Nome (que talvez não seja a melhor escolha para apresentar à mãe, mas…) e, teoricamente, aceitando a orientação do filho. Talvez possamos dizer que temos aqui um final feliz, com ele levando sua história para as páginas de um livro.
Vale a pena assistir Regras do Amor na Cidade Grande?

Sim, e muito! Ao contrário do livro e da série, o filme opta por dar mais destaque a Jae-hee e busca equilibrar os relacionamentos de todos os gêneros, o que dá um tom de comédia romântica à obra. O resultado é uma história leve, envolvente e nostálgica para quem viveu o começo da vida adulta nos anos de 2010.
Já o dorama tem uma abordagem mais centrada em Heung-soo (Go Young na série), explorando de forma mais profunda sua vivência LGBTQIAPN+, seus amigos e seu universo emocional. A personagem de Jae-hee (chamada de Choi Mi-ae na série) tem um papel menor, criando um contraste absurdo entre as adaptações.
A atuação de Noh Sang-hyun (Pachinko, Sense 8) é um dos pontos altos do longa, entregando um Heung-soo carismático e com nuances emocionais marcantes. Kim Go-eun (Goblin – O Solitário e Grande Deus) traz uma Jae-hee encantadora, rebelde e espirituosa, sendo perfeita para o papel.
A trilha sonora, com destaques do K-pop, e a estética bem cuidada criam o clima ideal para o filme, que foi premiado e elogiado internacionalmente.
É importante ressaltar que o arco do protagonista soropositivo, presente no livro e na série, não foi explorado no filme. Essa ausência não compromete a obra cinematográfica, mas é uma diferença significativa para quem busca acompanhar todas as versões da história.
Outros elementos, como o passado da mãe do protagonista como mãe solteira religiosa, também são abordados apenas na série, servindo como complemento para quem deseja mergulhar mais fundo no universo de Regras do Amor na Cidade Grande.
É fato que a Coreia do Sul já conta com diversas obras que abraçam o universo LGBTQIAPN+, especialmente entre os K-dramas Boys Love e Girls Love. No entanto, poucas causaram tanto impacto quanto Regras do Amor na Cidade Grande. Esse reconhecimento representa um amadurecimento e impulsiona o país a produzir, cada vez mais, histórias como essa.
E vivendo no Brasil, país conhecido por uma teledramaturgia que não hesita em expor as feridas da sociedade, é interessante ver como o cinema sul-coreano também está abrindo espaço para debates importantes. Regras do Amor na Cidade Grande é uma comédia romântica que emociona, diverte e faz pensar, saindo de uma bolha e se tornando um grande filme que merece ser visto, discutido e celebrado.
Trailer

Nota: 5 (de 5)
Regras do Amor na Cidade Grande
Coreia do Sul | 2024 | 118 min. | Comédia-Romântica
Título Original: Love in The Big City
Direção: E.oni
Roteiro: Park Sang-young
Elenco: Kim Go-eun, Steve Sanghyun Noh, Salim Benoit
Distribuição: A2 Filmes
Agradecimentos a A2 Filmes pelo convite para produzir este conteúdo